Conscientização sobre a poluição plástica nos oceanos e engajamento social em busca de soluções

Esteve em São Paulo, nos últimos meses de julho e agosto, a Exposição Itinerante Voz dos Oceanos, realização do Ministério da Cultura e da Família Schurmann. Com uma importante e pertinente abordagem para reconectar todos nós com as belezas e o fascínio do mar.
É uma experiência imersiva que mostra a necessidade da conscientização ambiental para que possamos salvar os oceanos das ameaças causadas pelo homem.
A mostra é integralmente acessível, com audiodescrição, braile, legendagem e pisos nivelados para pessoas com necessidades especiais.
Vale a pena visitar com a família: As crianças adoram pela interatividade e pelas informações que são passadas de forma lúdica, porém educativa. É de suma importância que nossos pequenos estejam bem informados sobre as questões ambientais para que as práticas sustentáveis sejam o caminho para o futuro!
Sustentabilidade à bordo

A exposição é parte do projeto Voz dos Oceanos pelo fim da poluição plástica, proteção de ecossistemas e reaproveitamento.
Velejando por mares livres de resíduos plásticos, os Schurmann idealizaram uma embarcação sustentável e com ferramentas para que eles pudessem produzir pouco lixo e reaproveitar tudo que fosse possível.
Foi a bordo do veleiro Kat, que a família já chegou aos quatro cantos do mundo e registrou dados e imagens incríveis sobre os impactos causados pelo homem na biodiversidade marinha. A embarcação, escolhida para essa iniciativa que conta com a parceria do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, foi construído em 2014.
Heloísa Schurmann conta sobre outro processo inovador que a família faz dentro do Kat:
“Toda a nossa água potável é através de um dessalinizador. Nós bebemos água do oceano, gente! Além disso, toda a nossa água de esgoto [...] é tratada. Ela é tratada por um equipamento que foi construído no Brasil e que provou e testou toda a água tratada. Depois que ela passa por esse processo de tratamento sem nenhuma química, ela passa por lâmpadas ultravioletas”
Os oceanos são os pulmões do mundo!
Com uma vasta extensão que cobre mais de 70% da superfície terrestre, os oceanos abrigam uma imensa biodiversidade de vida marinha e também desempenham um papel crucial na regularização do clima e na produção de aproximadamente 50% do oxigênio que respiramos.
Esse processo é desempenhado em grande parte pelo fitoplâncton que, através da fotossíntese, capturam dióxido de carbono e luz solar e produzem oxigênio e nutrientes.
Cada vez que respiramos, estamos inalando o resultado do trabalho incansável destes pequenos heróis do mar. Por esta e outras razões, proteger os oceanos é essencial para garantir um futuro sustentável para todas as formas de vida no planeta.
A importância dos corais
Poucos sabem da real importância dos corais marinhos, que além de serem parte da biodiversidade dos oceanos e serem lindos de ver, garantem o funcionamento deste ecossistema.
Os corais marinhos são os verdadeiros guardiões dos oceanos, são abrigo e alimento para a vida marinha, além de filtrarem a água.
“Saudáveis, os corais formam barreiras, jardins e habitats para uma infinidade de vidas marinhas, com um colorido fascinante. É uma diversidade de Cores e tons que nos encantam e destacam a beleza da vida debaixo d'água!” Heloisa Schurmann
A verdade é que estamos todos conectados, da terra ao mar. Proteger os recifes e corais é essencial.
Aquecimento global e o branqueamento dos corais: sinais de alerta
Nosso delicado ecossistema marinho está sob ameaça constante, isso acontece por conta das mudanças climáticas, a poluição, a pesca predatória e o desenvolvimento costeiro desordenado.
Quando um coral sofre certos tipos de impactos, como o aumento da temperatura da água ou sufocamento por plástico, pode perder as microalgas que vivem em harmonia dentro dele.
Sem elas, outro fenômeno impactante acontece: os corais perdem suas cores vibrantes e uma importante fonte de alimento, ficando bastante fragilizados. Esse processo, chamado de branqueamento, pode até levar à morte em massa dos corais se for intenso ou duradouro.
Atualmente, o aumento da temperatura dos oceanos - impulsionado pelas mudanças climáticas e por eventos como o El Niño -, junto com a poluição e a acidificação das águas, são as principais causas do branqueamento dos corais. Por esses motivos, estamos correndo o risco de perder toda a cobertura de corais como ecossistemas funcionais do planeta até 2100, caso a temperatura do planeta suba 2 graus Celsius.
A proteção de recifes e corais é importante não apenas para a biodiversidade marinha, mas também para garantir o bem-estar e a sobrevivência de cerca de 500 milhões de pessoas que dependem diretamente desses ecossistemas para viver e se sustentar.

O impacto do plástico na vida marinha
O oceano respira para a Terra, mas está sob ameaça pelo plástico:

O ciclo da garrafa Pet no meio ambiente
Uma garrafa d'água feita de plástico de uso único demora 15 segundos para ser produzida e possui vida útil média de 12 minutos. Mas seu impacto no meio ambiente e em nossas vidas é duradouro. Mesmo após sua decomposição, ao se tornar um microplástico, ela permanece degradando ecossistemas, entrando na cadeia alimentar de animais marinhos e até naquilo que você consome.
O Brasil é o quarto país que mais gera plástico no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e India, e despejou, somente em 2022, o suficiente para cobrir mais de 7 mil campos de futebol.
“171 trilhões de partículas de plástico
estão acumuladas nos oceanos.
14 partículas em cada grão de areia.”
Fonte: Barrett et al. (2020) - Frontiers in Marine Science
Pesca fantasma
Silenciosas, ameaçadoras e mortais, as redes abandonadas nos oceanos estão diretamente ligadas à degradação de habitats sensíveis, como os recifes de corais, leitos de algas marinhas e fundos rochosos, afetando a estrutura e a biodiversidade desses ecossistemas.
Conhecida como pesca fantasma, essa ameaça oculta é consequência do descarte ou abandono de equipamentos de pesca no mar, que permanecem por longos períodos capturando, mutilando, causando ferimentos, aprisionando e matando animais marinhos, mesmo sem intervenção humana.
Somente na costa brasileira, todos os dias, cerca de 580 quilos desses materiais são deixados no mar, transformando-se em verdadeiras armadilhas submersas.
De acordo com um estudo de 2018, da World Animal Foundation, um cenário alarmante se revela: aproximadamente 25 milhões de animais marinhos foram impactados por esses equipamentos em apenas um ano no pais.

A pesca ilegal e industrial em larga escala são os principais vilões, esgotando estoques pesqueiros e enfraquecendo comunidades costeiras que dependem da pesca para sobreviver. Assim, combater a pesca fantasma, além de uma questão ambiental, é uma missão humanitária. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), cerca de 600 milhões de pessoas no mundo dependem da pesca para seu sustento diário, sendo 90% pescadores artesanais.
Essa abordagem permite que a cadeia produtiva marinha seja mantida de forma mais equilibrada, garantindo a disponibilidade continua de alimentos e recursos para as comunidades locais, ao mesmo tempo em que protege a biodiversidade e os habitats marinhos.
Com seus métodos tradicionais e em pequena escala, a pesca artesanal é como uma luz no fim do túnel: sustenta econômica, social e ambientalmente as comunidades costeiras ao redor do mundo.
Diferente da pesca industrial em larga escala, ela é conduzida por pescadores locais que dependem do mar para subsistência e renda, preservando a harmonia entre os seres humanos e o oceano.
Mar de Plástico: o impacto de nossas escolhas
A cada ano, o mundo produz cerca de 350 milhões de toneladas de resíduos plásticos. Como se não bastasse esse dado preocupante, cerca de 6 milhões de toneladas são despejadas nos rios e nas costas, e aproximadamente 1,7 milhão acabam nos oceanos.
Essa história triste é escrita principalmente por uma gestão inadequada do descarte de lixo. E nós, protagonistas dessa tragédia, contribuímos, e muito, com um problema que é global, já que estudos indicam que apenas 30% das pessoas separam o lixo comum do reciclável.
O quadro piora ao sabermos que, somente no Brasil, das cerca de 80 milhões de toneladas de lixo geradas em 2022, apenas 4% foram recicladas.
Acontece que, mesmo quando fazemos o descarte correto, o lixo, levado pelo vento ou pela chuva, pode acabar nos esgotos e, finalmente, nos oceanos.
Observando esse cenário, impossível não destacar a importância de uma consciência coletiva sobre o "efeito borboleta" e o impacto de cada uma das nossas ações no meio ambiente.
Mas é em meio a esse cenário desafiador que surgem os catadores, nossos heróis invisíveis do dia a dia. Somente em território nacional, cerca de 800 mil catadores de materiais recicláveis dedicam suas vidas a transformar o lixo em recursos. Esses agentes ambientais, como são conhecidos, coletam 90% de todo o material reciclável no Brasil. São a alma da reciclagem, valorizando cada pedaço de plástico, papel, metal e vidro que encontram.
A reciclagem não é apenas um dever, é um ato de amor e de cuidado. Ao valorizar o trabalho dos catadores e separar corretamente nosso lixo, estamos cuidando do nosso planeta e garantindo um futuro mais verde para as próximas gerações.
O Microplástico em nossas vidas

Os microplásticos são pequenas partículas de plástico, com até 5 mm de diâmetro, que têm sido encontradas em praticamente todos os ambientes da Terra, desde o fundo dos oceanos até o ar que respiramos. Elas podem ser produzidas já em pequenos tamanhos, como as microesferas usadas em cosméticos e produtos de higiene, ou resultar da fragmentação de materiais plásticos maiores, como garrafas e sacolas. Um estudo realizado por Leslie et al. (2022), publicado na revista “Environmental International”, revelou que essas partículas minúsculas são capazes de penetrar na nossa corrente sanguínea, o que aumenta a preocupação com os possíveis efeitos na saúde humana.
No maior mercado de peixes de Xangai, na China, pesquisadores descobriram que 100% das amostras de nove espécies de bivalves, como ostras e mariscos, continham microplásticos. Esses animais filtram grandes volumes de água e, como resultado, acumulam essas partículas em seus organismos. De forma semelhante, a pesquisadora brasileira Anne Justino identificou microplásticos em atuns, demonstrando que essa contaminação se estende a diversas espécies marinhas. Ao consumirmos frutos do mar contaminados, acabamos ingerindo microplásticos sem perceber. No entanto, a questão não se limita aos frutos do mar. Estima-se que, em média, uma pessoa consuma cerca de 5 gramas de microplásticos por semana, o equivalente ao peso de um cartão de crédito, através de alimentos, água e até mesmo do ar que respiramos.
Outro estudo realizado por Lieberzeit e Lieberzeit encontrou microplásticos em 24 marcas de cervejas alemãs, bem como em açúcar, mel e sal marinho de marcas chinesas, destacando a onipresença dessas partículas. Além disso, uma pesquisa publicada na revista “Science of The Total Environment” revelou a presença de microplásticos no ar da cidade de São Paulo, o que sugere que essas partículas podem ser inaladas diariamente, aumentando o risco de exposição.
Como os Microplásticos Afetam Nossa Saúde?
Embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para entender completamente os efeitos dos microplásticos no corpo humano, os estudos realizados até agora indicam possíveis riscos à saúde.
Um estudo com a planta Lemna minor (lentilha d’água) mostrou que suas raízes diminuíram após exposição a microplásticos de cosméticos por 7 dias, sugerindo um impacto negativo no desenvolvimento vegetal. Em peixes da espécie Sparus aurata, que foram expostos a microplásticos, pesquisadores espanhóis observaram danos ao sistema imunológico, além de problemas no fígado e nos rins. Esses danos são preocupantes, pois sugerem que os microplásticos poderiam causar efeitos semelhantes em humanos. Uma vez ingeridos, os microplásticos podem permanecer no corpo por longos períodos, o que potencializa os danos.
Absorção de Substâncias Tóxicas
Uma característica perigosa dos microplásticos é sua capacidade de absorver substâncias hidrofóbicas, como pesticidas, metais pesados e outros químicos tóxicos. Essas substâncias podem ser transportadas pelos microplásticos para diversas partes do ambiente e, eventualmente, para dentro do corpo humano. Pesquisadores alertam que esses compostos podem causar sintomas inflamatórios e interferir no sistema endócrino, que regula hormônios vitais para diversas funções corporais.
Além dos riscos diretos à saúde, os microplásticos também representam uma ameaça à biodiversidade e aos ecossistemas. Eles afetam a vida marinha, desde os menores organismos até grandes mamíferos, como baleias, que ingerem grandes quantidades de plástico ao filtrar a água. Esses efeitos cascata podem ter consequências devastadoras para o equilíbrio dos oceanos e, por extensão, para a vida no planeta.
Essas pequenas partículas, embora aparentemente inofensivas devido ao seu tamanho, têm o potencial de causar impactos significativos e duradouros na saúde humana e no meio ambiente. O crescente corpo de evidências sobre os perigos dos microplásticos deve servir como um alerta para a necessidade urgente de reduzir a poluição por plásticos e buscar alternativas sustentáveis.

Consciência com ciência cidadã: Conhecer para conservar
Ciência cidadã é uma abordagem colaborativa que envolve a participação ativa do público em geral no processo científico, promovendo a conscientização ambiental e fortalecendo a conexão entre pesquisadores, biólogos, cientistas, especialistas e comunidades locais. Essa conexão resulta em um maior engajamento na conservação e nas ações de gestão sustentável dos recursos naturais.
Isso pode levar a uma maior compreensão dos desafios enfrentados pelo meio ambiente e à adoção de práticas mais sustentáveis.
É o que propõe a exposição "Voice of the Oceans", aproximando você da realidade dos problemas ambientais e despertando a conscientização sobre a importância da preservação dos oceanos.
SAIBA MAIS SOBRE ESTE PILAR CIENTÍFICO E FAÇA ESSA VOZ ECOAR: https://voiceoftheoceans.com/cientifico/

