Introdução alimentar antes dos 6 meses

Construindo um comportamento para vida inteira

 

 

 

Por que temos a necessidade de ter nossos filhos comendo? Ou melhor, raspando o prato?

No início do século XX, com o surgimento da pediatria, os pediatras tinham uma função e as famílias uma expectativa: que as crianças sobrevivessem. Doenças, falta de vacinas, guerra e a fome, assolavam o período. Os avós de hoje nasceram no final da Segunda Guerra Mundial ou foram criados por pessoas que passaram por ela e definitivamente conheciam a falta de alimentos e foram testemunhas desse medo da fome e da desnutrição.

O medo era maior para crianças subnutridas e desnutridas, essas, infelizmente, quando ficavam doentes tinham mais chance de morrer. Ou seja, a meta de toda família e de todo pediatra era bem nutrir essas crianças. Alimentá-las era garantir a sobrevivência e o ganho de peso era a forma mais eficaz de segurança alimentar. Em um momento de escassez de alimentos, a necessidade que a família tinha de ver que a criança comendo era a garantia de saúde.

Nessa premissa de que comer significava sobreviver, padrões positivos de bebês com dobras e crianças com sobrepeso, independente da qualidade da comida, era hipervalorizado e produtos foram lançados inicialmente no propósito de engordar crianças no primeiro ano de vida, hoje são sabidamente nocivos. O leite condensado é um dos maiores exemplos desses produtos e foi idealizado para substituir o leite materno.

 

 

 

Consequências das práticas excessivas

Aprofundando esse pensamento, e lembrando das competições da época que escolhiam bebês robustos e com dobrinhas (sim, essas competições existiam!), bebês em aleitamento materno exclusivo pareciam magros do lado dos outros que recebiam leite condensado ou leite de vaca com engrossante e daí surgiu o medo e apreensão do leite materno como “leite fraco.”

Hoje já sabemos comportamentos de gerações anteriores a nossa, como o medo de morrer de fome, passaram para as nossa geração através do DNA e culturamente reforçando a necessidade das dobrinhas, do prato raspado, do permitir trocas alimentares hedônicas como o “danoninho que vale um bifinho” e da ideia equivocada do leite materno não ser maravilhosamente suficiente.

Se outrora tínhamos uma sociedade de escassez, atualmente vivemos em excessos. Excesso de informação, excesso de sal, açúcar e gordura, facilidade de encontrar comidas prontas e ultraprocessadas e o excesso de sedentarismo.

O que antes era um desafio de ganho de peso somente, hoje se tornou um desafio alimentar. O peso considerado adequado não traz simultaneamente competências alimentares. E sem competências alimentares adequadas, temos adultos sofrendo com as doenças dessa sociedade de excessos. E como todo comportamento, bom ou ruim, tem sua origem na infância, a introdução alimentar é um momento importantíssimo de construir uma boa relação com a comida e aprofundar a interação com os alimentos.

bebe segurando fita metrica

 

 

Um bom exemplo vale mais do que palavras!

E vamos partir desse contexto para continuar nossa conversa?

Vamos esquecer um pouco dos métodos para introdução alimentar, dos check list de como começar ou dos milhares artigos “necessários” que achamos que precisamos comprar para nossos filhos comerem bem e vamos contemplar a grandeza que é ensiná-los a ter uma boa relação com a comida.

E a primeira etapa começa com os pais e os cuidadores, somos exemplos, nossos filhos são esponjas.

Como você come? Momentos a mesa em família existem na sua casa? O celular te faz mais companhia do que outras pessoas? Sua vida é baseada em dietas restritivas ou seletividade alimentar?

Ensinar o que não somos ou o que não fazemos tem prazo de validade com as crianças que são os seres mais observadores do universo. Então, antes dos 6 meses e idealmente antes da gestação, sempre podemos olhar para dentro e melhorar a nossa relação com a comida.

A relação com a comida começa desde o preparo, e incluir as crianças nessas etapas além de

reforçar o vínculo com os cuidadores, traz a atenção aos alimentos.

bebe usando macaquinho da Timirim, na cozinha junto com o pai preparando alimentos

 

 

O papel dos pais e cuidadores no processo de introdução alimentar. 

E quais são essas competências alimentares que precisamos ter?

A primeira delas é entender que existe uma divisão de papeis na introdução alimentar. O papel dos cuidadores e o papel da criança. O papel dos cuidadores envolve escolher os alimentos (buscar sempre alimentos orgânicos, na sua grande maioria in natura ou preparados em casa evitando assim ultraprocessados), oferecer esse alimento em local adequado com segurança e em um momento que seja prazeroso para ambos (evitando momentos de sono e irritabilidade).

Então os cuidadores determinam a rotina da casa estabelecendo horário, evitando um padrão de beliscos ou excesso de alimentos não nutritivos como ultraprocessados e bebidas açucaradas. O momento da refeição precisa ser agradável e as crianças precisam observar instruções verbais coerentes com ações voltadas a uma boa alimentação.

 

bebe adorável sentado sobre a pia da cozinha sendo alimentado por sua mae. O bebe usa body classico cajuzinho da Timirim e tapa fraldas amarelo da Timirim

 

 

E as crianças interferem nos papeis dos cuidadores?

Muitas vezes sim, é permitido que as crianças decidam o local (no chão, no sofá, em frente a teve ou andando), não seguindo a rotina estabelecida e comendo lanches demasiadamente entre as refeições e exigindo alimentos diferentes dos quais foram propostos.

Além disso é essencial e primordial que os pais e cuidadores saibam ler seus filhos, entender os sinais de fome ou saciedade e respeitá-los evitando assim o excesso de ofertas e permitir que a criança sinta fome entre as refeições.

Para as crianças fica a responsabilidade de decidir se vai comer ou não e o quanto vai comer. Os pais não devem interferir na aceitação da criança e sabemos o quanto é difícil não tentar interferir aqui né? Justamente pelo medo da fome que está marcado no nosso código genético, acabamos interferindo quando forçamos nossos filhos a comer ou os distraímos com telas ou substituímos os alimentos prontamente até que algo seja de fato aceito.

As maiores dificuldades alimentares envolvem o não respeito pela recusa, o excesso de ofertas, a distração para comer e a necessidade dos cuidadores de controlar todo o processo sem respeitar a responsabilidade das crianças.

 

 

Como saber se o bebê está com fome ou saciado?

Aos 6 meses de idade:

Sinais de fome: chora e se inclina para a frente quando a colher está próxima, segura a mão da pessoa que está oferecendo a comida e abre a boca.

Sinais de saciedade: vira a cabeça ou o corpo, perde o interesse na alimentação, empurra a mão da pessoa que está oferecendo a comida, fecha a boca, parece angustiado ou chora.

Entre 6 e 7 meses de idade:

Sinais de fome: inclina-se para colher ou alimento, pega ou aponta para a comida

Sinais de saciedade: come mais devagar, fecha a boca ou empurra o alimento. Fica com a comida parada na boca sem engolir.

Entre 9 e 11 meses de idade:

Sinais de fome: aponta ou pega alimentos, fica excitada quando vê o alimento.

Sinais de saciedade: come mais devagar, fecha a boca ou empurra o alimento. Fica com a comida parada na boca sem engolir.

Entre 1 e 2 anos de idade:

Sinais de fome: combina palavras e gestos para expressar vontade por alimentos específicos, leva a pessoa que cuida ao local onde os alimentos estão, aponta para eles.

Sinais de saciedade: balança a cabeça, diz que não quer, sai da mesa, brinca com o alimento e joga-o longe.

A meta da alimentação não pode ser o “prato vazio”, pois assim os sinais de fome e saciedade serão ignorados. Para respeitar ainda mais é necessário que o cuidador apresente a colher com o alimento, mas permita que o bebê busque a colher com sua boca ou mão.

bebe divertido sentado para se alimentar. Abre a boca, como fome!

 

 

Como saber se o bebê está pronto para começar a introdução alimentar?

Os sinais de prontidão que precisam estar presentes são: sentar-se com o mínimo de apoio, conseguir buscar e levar objeto a boca, ampliação dos movimentos da língua (com a diminuição do reflexo de protusão da língua) e interesse pela comida.

Se o seu bebê ainda não tem esses marcos, tudo bem, podemos estimular de outras formas:

Manter sempre o bebê próximo no momento das refeições para que o interesse pela comida cresça

Brincadeiras sensoriais com frutas inteiras devidamente higienizadas, assim saímos um pouco do padrão das brincadeiras essencialmente com plásticos e brinquedos comprados. A natureza tem uma vasta coleção de texturas que faziam parte da nossa coleção de brinquedos há milhares de anos.

bebe vestindo roupinha da Timirim está brincando com frutas

 

 

 

Por que começamos pelas frutas?

Bom, não existe uma regra específica, o ideal é que a criança conheça sempre o alimento in natura e existe uma predileção pelo paladar mais doce, uma vez que o leite materno é o leite mais “doce” de todos os mamíferos por ser rico em lactose (açúcar natural presente no leite materno) sabores amargos e azedos não são bem aceitos no começo.

Então o ideal é começarmos com frutas amassadas aos 6 meses e gradualmente podemos evoluir na apresentação de pedaços.

 

Confira aqui o GUIA ALIMENTAR DA CRIANÇA BRASILEIRA PARA CRIANÇAS MENORES DE 2 ANOS

 

 

Como pediatra, qual mensagem final gostaria que meus pacientes tivessem:

Não podemos vincular a introdução alimentar ao ganho de peso. Uma boa alimentação é para a vida toda, são competências que reduzem o risco de doença no futuro e reforçam o bem-estar e a longevidade. Vivemos numa sociedade onde adultos buscam reeducação alimentar e diminuição de excessos para viver melhor e uma mesma sociedade onde permitimos esses excessos a nossas crianças.

O grande desafio desse momento é entender que como cuidadores temos obrigações importantíssimas e uma delas é entender e respeitar a fome e a saciedade do bebê. Priorizar a conexão e os bons comportamentos talvez seja o nosso maior legado.

 

 

POR Dra. Susie - Pediatra

@drasusie_bertrand

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