
Nos primeiros meses de vida, o bebê depende completamente da presença e da atenção de quem cuida dele para entender o mundo. O olhar, o toque e a disponibilidade emocional fazem parte da base do desenvolvimento infantil.
Mas o que significa, na prática, olhar verdadeiramente para um bebê?
A pediatra Dra. Susie Bertrand compartilha uma reflexão sensível sobre maternidade, vínculo e o impacto do olhar no desenvolvimento do bebê.
O bebê precisa ser visto para existir
Existe uma máxima do desenvolvimento infantil: o bebê precisa de alguém que o olhe. Normalmente a mãe ou a figura materna. Sem isso, entristece.
Como residente de pediatria em um grande hospital público em São Paulo já tinha visto isso acontecer, sem esse olhar, esse amor incondicional, não existimos. O bebê adoece e definha na nossa frente.
Me faz pensar que o corpo pensa assim: Qual o propósito? Qual o porquê de existir se esse outro não me olha. Logo esse outro que me deu a vida.
Mas quando esse olhar vem, tudo faz sentido. As células parecem que se unem para fazer acontecer, uma respiração celular profunda como quem diz: Vamos existir.
Poeticamente a origem da mitocôndria – organela responsável pela respiração da célula – é materna. Do óvulo vem a possibilidade de ser, ainda enquanto célula e com cada célula, como um corpo inteiro.
Para ser, eu preciso existir, e para existir o outro precisa me olhar. Mais do que me ver, o outro precisa querer me olhar.

O vínculo que dá significado
Desde sempre precisamos de um outro, um outro que dê significado.
Significado ao nosso choro, ao nosso sorriso, à nossa força, ao nosso sono, à nossa fome, à nossa existência.

Quando a médica descobre a maternidade na prática
O que eu descobri depois de ser mãe foi o quão difícil é ser esse outro, não é verdade?
A maternidade é trabalhosa, dar significado a um bebê exige tempo, paciência e disponibilidade.
Eu descobri que quase todo dia ser esse outro é assumir que o meu tempo não é meu, que prestes a sair o bebê pode gofar e vamos precisar trocar de roupa ou uma soneca inesperadamente mais longa muda toda a programação ou a rixa assumida com o bebê conforto vai me fazer repensar aquele final de semana na praia.

A rotina exaustiva dos primeiros meses do bebê
Os dias são longos, por meses eu existia a cada 3 horas ou menos, se a fome desse ser que come, dorme e faz cocô viesse mais cedo.
E nesse “on repeat”, que parecia eterno, eu buscava esse olhar também. Buscava um sinal de que também estava sendo vista e ressignificava todos os sorrisos “reflexo” para mim, para o meu esforço.
Como quem pergunta: você vê minha força?
E você sorria de canto de boca.
Olhar e ser olhada: a troca que sustenta a maternidade
O que eu descobri depois que me tornei mãe foi que ser esse outro que dá significado é difícil, é exaustivo, é extenuante.
“Para existir, o bebê precisa ser olhado. Mais do que me ver, o outro precisa querer me olhar.”

Os dias são longas horas sem fim, o “seu tempo” é relativo e fugaz.
Mas quando esse outro te olha e sorri parece que todas as suas células se unem e, sorrindo, dizem:
Isso é ser mãe.
Olhar e ser olhada
